O que deveria ser uma ação de inclusão social e garantia de direitos transformou-se em um cenário de desorganização, sofrimento e desrespeito à população de Trancoso, distrito de Porto Seguro. O chamado SAC Móvel, amplamente divulgado nas redes sociais, em cards promocionais e peças publicitárias associadas à deputada estadual Cláudia Oliveira, acabou expondo uma realidade que contrasta brutalmente com a propaganda apresentada à comunidade.
A proposta de levar serviços essenciais de documentação e cidadania para mais perto da população é, sem dúvida, relevante e necessária. Afinal, milhares de pessoas enfrentam dificuldades para acessar órgãos públicos, especialmente em localidades mais distantes dos grandes centros. Porém, quando iniciativas dessa natureza são conduzidas sem planejamento adequado, sem estrutura compatível com a demanda e sem respeito ao cidadão, o que deveria ser uma solução acaba se transformando em mais um problema.
Os relatos e imagens registrados durante a ação mostram um quadro preocupante: idosos aguardando por horas em pé, pessoas com deficiência sem atendimento prioritário efetivo, crianças expostas ao calor e à exaustão, filas intermináveis e um ambiente de evidente desconforto. Em vez de organização e acolhimento, muitos encontraram tumulto, incerteza e desgaste.
Ainda que parte dos atendimentos tenha sido realizada e algumas pessoas tenham conseguido emitir documentos ou resolver pendências, isso não apaga a forma como a população foi submetida a condições indignas. O acesso a direitos básicos não pode ser tratado como favor político nem transformado em evento de marketing.

A cidadania não deve ser usada como ferramenta de promoção pessoal. Serviços públicos dessa natureza exigem seriedade, responsabilidade e, sobretudo, respeito às pessoas. Quando a divulgação é grandiosa, mas a execução se mostra precária, cria-se uma sensação de engano que acaba atingindo justamente aqueles que mais necessitam do atendimento.
É preciso questionar qual era o verdadeiro objetivo da iniciativa. Se a intenção era promover cidadania, por que não houve estrutura suficiente para atender a demanda previsível? Por que não foram garantidas condições adequadas para idosos, gestantes, pessoas com deficiência e crianças? Por que a preocupação com a imagem pareceu superar a preocupação com a qualidade do serviço prestado?
A população de Trancoso merece muito mais do que ações pontuais cercadas de publicidade. Merece serviços públicos permanentes, eficientes e humanizados. Merece ser tratada com dignidade, não como figurante de campanhas promocionais ou números para divulgação política.
O episódio deixa uma reflexão necessária sobre a crescente distorção de iniciativas que deveriam ter caráter exclusivamente social. A cidadania é um direito constitucional, não uma peça de propaganda. Quem busca regularizar documentos, acessar benefícios ou resolver pendências burocráticas geralmente enfrenta dificuldades reais e urgentes. Transformar essa necessidade em palco para autopromoção representa uma inversão de valores que precisa ser denunciada.
O que ocorreu em Trancoso não deveria ser lembrado pelos documentos emitidos, mas como um alerta sobre a necessidade de planejamento, respeito e responsabilidade na execução de políticas públicas. Porque cidadania não se mede pelo tamanho do banner, pela quantidade de postagens nas redes sociais ou pela repercussão política de uma ação. Cidadania se mede pela forma como as pessoas são tratadas.
E, diante das cenas presenciadas, fica a sensação de que, naquele dia, a dignidade ficou do lado de fora da fila.