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Dia da Consciência Negra: o vento, o tempo, o relógio e a chibata

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Trocou-se o vento pelo tempo e o relógio nunca parou de funcionar. Mas a chibata, esta continua a estalar. E dói, dói como  sempre.

Não se sabe ao certo, quando surgiu essa onda brasileira ou até mundial. Sabe-se que é recente e vem entranhada nas veias sujas da extrema direita, do relativismo que, em última instância, chega ao negacionismo.

De repente, começaram a espalhar por aí, que não houve extermínio dos povos originários, que não houve escravidão, que não houve ditadura, racismo, misoginia etc. E, se existiram ou existem “não foi bem assim, não é tão como dizem”, principalmente, se comparada com os outros países e povos. Tão repentino também, vieram com premissas e professores passaram a não prestar, de que são tudo um bando de maconheiros. Negam a história e a ciência, distorcendo-as aos seus interesses escusos como quem torce uma toalha molhada de sangue.

Ontem, 19 de novembro, na véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro é espancando até a morte na porta do Carrefour, em Porto Alegre, no Rio Grande Sul. Esse é o retrato famigerado do Brasil, em sua pior versão, em sua insistência em negar ou relativizar o óbvio.

Nessa retórica imunda que vem sendo veiculada por aí, por todos os cantos, do atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, se precisar de exemplo, que nega a escravidão, a cultura negra e seus expoentes. Esse capitão do mato contemporâneo, que trai suas raízes, que ameaça e persegue militantes do movimento negro e líderes de religiões de matriz africana, é a prova viva do racismo estrutural, hoje tema do Dia da Consciência Negra.

A sociedade hipócrita desse país vem há tempos vendendo a idéia de que: “somos todos iguais, somos brasileiros; somos mestiços!”. Porém, quando a chibata estala, estala nas costas dos negros, como o homem que foi assassinado na porta do supermercado, reverberando os pensamentos vinculados ao passado de violência aos negros, que não serão esquecidos, relativizados ou negados, pelo menos enquanto existirem pessoas, as mesmas que o presidente da Fundação Palmares insiste em querer apagar dos registros históricos.

Páginas com a história de nomes como Zumbi dos Palmares, Luís Gama, André Rebouças e Carolina de Jesus foram removidas, a pedido de Sérgio Camargo, além de nomes “vivos” , como Gilberto Gil, Elza Soares, Martinho da Vila e Benedita da Silva.

A que ponto chegamos, uma fundação que deveria promover a cultura negra, se tornou sua própria opressora.

Era hora de aprofundarmos a discussão sobre o racismo, mas estamos aqui a defender o óbvio, de um massacre ao povo negro que continua a se perpetuar, na covardia de quem relativiza ou nega. Era hora de trocar o tempo pelo vento e deixar o balão voar sem parar, mas fazemos o inverso, trocamos o vento pelo tempo. E assim o relógio nunca parou de funcionar e a chibata continua a estalar. E dói, dói como sempre.

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