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A Hipocrisia da Compaixão Seletiva (A sina da filha de Joneuma)

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Há momentos em que uma sociedade revela seu verdadeiro caráter não pelos discursos que profere, mas pelas lágrimas que escolhe derramar.

Quando um jovem oriundo da pobreza, criado em comunidades marginalizadas, envolvido com o crime, é preso ou morto, raramente se vê uma onda de solidariedade destinada à sua família. Poucos perguntam sobre a mãe que sofre, os filhos que ficam órfãos ou os pais que carregam o peso da vergonha e da dor. A regra parece simples: o criminoso deve responder pelos seus atos e sua família deve suportar, silenciosamente, as consequências.

Mas essa lógica muda quando os protagonistas pertencem às camadas privilegiadas da sociedade.

Quando o acusado possui sobrenome influente, relações políticas, patrimônio acumulado ou trânsito nos círculos do poder, a narrativa frequentemente se desloca do crime para o sofrimento familiar. O foco deixa de ser a gravidade dos fatos investigados e passa a ser a aflição dos pais, dos irmãos e dos parentes. De repente, surgem apelos emocionais, manifestações públicas de compaixão e campanhas em defesa da humanidade daqueles que, até então, pareciam estar acima das regras que regem a vida da maioria dos brasileiros.

Não se trata de negar o sofrimento dessas famílias. Dor não tem classe social. Uma mãe sofre independentemente do saldo bancário. Um pai se angustia independentemente do endereço onde mora. O problema está na seletividade.

Por que a compaixão se manifesta com tanta intensidade para alguns e com tamanho silêncio para outros?

A recente repercussão de um caso criminal de grande impacto na Bahia expôs, mais uma vez, essa contradição. Enquanto parte da opinião pública demonstrava solidariedade aos familiares de investigados pertencentes a grupos influentes, pouco ou nada se falava sobre outras pessoas atingidas pelos desdobramentos da mesma história. Vítimas indiretas, crianças, familiares abandonados e pessoas arrastadas para situações dramáticas permaneceram praticamente invisíveis diante do noticiário e das manifestações públicas.

Essa invisibilidade também é uma forma de injustiça.

Uma sociedade verdadeiramente comprometida com valores universais não pode medir sua empatia pela posição social dos envolvidos. Não pode transformar sobrenomes em escudos morais nem permitir que o prestígio político funcione como atenuante emocional.

O sofrimento de uma família rica não vale mais do que o sofrimento de uma família pobre. A dor de quem vive em mansões não é mais legítima do que a dor de quem vive em casas simples. E o choro de uma criança rejeitada jamais deveria ser menos importante do que o desespero de adultos acostumados aos privilégios do poder.

A democracia exige igualdade perante a lei. A maturidade social exige igualdade perante a compaixão.

Se acreditamos que todos devem responder por seus atos, também devemos reconhecer que todas as vítimas merecem ser vistas. Se condenamos a seletividade da Justiça, devemos igualmente condenar a seletividade dos nossos sentimentos.

Talvez o maior desafio não seja prender criminosos ou investigar esquemas ilícitos. Talvez seja derrubar os muros invisíveis que nos fazem enxergar humanidade apenas naqueles que se parecem conosco, pertencem ao nosso círculo social ou carregam sobrenomes conhecidos.

Enquanto continuarmos escolhendo quem merece nossa solidariedade e quem merece nosso silêncio, permaneceremos presos a uma hipocrisia coletiva que enfraquece a própria ideia de justiça.

Uma sociedade justa não é aquela que protege os poderosos quando erram. É aquela que aplica os mesmos princípios a todos, sem distinção de classe, sobrenome, influência ou patrimônio.

Somente quando aprendermos essa lição poderemos afirmar, sem constrangimento, que a justiça e a dignidade humana realmente pertencem a todos.

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