Porto Seguro pelos olhos de um pintor: quando a cidade vira luz, memória e arte
Exposição de Thiago Castro transforma paisagens, história e natureza do município em uma celebração de cores, atmosferas e instantes
Há lugares que simplesmente existem. Outros parecem pedir para ser contemplados.
Porto Seguro pertence à segunda categoria.


Entre o azul do Atlântico, o verde que resiste nas paisagens da Mata Atlântica, as falésias, os rios, as praias, as construções históricas e a presença viva de diferentes culturas, a cidade oferece ao olhar uma sucessão quase interminável de cenas. A cada hora, a luz muda. A paisagem se transforma. E aquilo que parecia permanente revela-se, na verdade, um instante.
Foi justamente essa natureza passageira da cidade que conquistou o olhar do pintor carioca Thiago Castro.
Há quatro anos, ao chegar a Porto Seguro acompanhando a família, o artista encontrou mais do que uma nova morada. Encontrou uma fonte renovada para sua pintura. Depois de cerca de 30 anos dedicados às artes, passou a estabelecer com a cidade uma relação de observação, descoberta e pertencimento.
“Aqui encontrei uma fonte constante de inspiração para minha pintura”, revela.
Desde então, Porto Seguro passou a entrar em suas telas não apenas como paisagem, mas como experiência.

O pintor diante da paisagem
Influenciado pelo impressionismo e trabalhando principalmente com óleo sobre tela, Thiago tem na pintura ao ar livre — plein air painting — uma de suas principais características.
É diante da própria paisagem que ele procura compreender o que deseja pintar.
Não há apenas um cenário diante de seus olhos. Há o movimento das nuvens, a intensidade do sol, o reflexo da luz sobre o mar, as sombras que percorrem uma construção antiga, o verde que ganha diferentes tonalidades ao longo do dia, o movimento das pessoas e a atmosfera particular de cada lugar.
O artista observa Porto Seguro em transformação.
E pinta justamente essa transformação.
Sua preocupação não é reproduzir fotograficamente aquilo que vê, mas capturar uma sensação. O instante em que determinada paisagem se apresenta de uma maneira única e irrepetível.
Um pedaço de céu pode durar poucos minutos. Um reflexo sobre a água desaparece com a mudança do sol. Uma rua histórica ganha outra aparência no fim da tarde. A mesma praia pode parecer outra quando o tempo muda.
É nesse território entre o permanente e o passageiro que Thiago encontra sua matéria-prima.
Uma cidade que carrega séculos de histórias

A relação do artista com Porto Seguro também atravessa sua dimensão histórica e cultural.
Pintar a cidade é, de certa maneira, dialogar com uma paisagem que carrega séculos de memória. É caminhar por lugares onde a arquitetura, a natureza e a presença humana contam histórias que ultrapassam gerações.
Nas telas de Thiago, essa história encontra a luz do presente.
O patrimônio histórico não aparece isolado, como peça de museu. Ele convive com o cotidiano, com o movimento das ruas, com o céu, com o mar e com a vegetação. A natureza deixa de ser apenas pano de fundo e passa a participar da narrativa.
Assim, o artista constrói uma Porto Seguro particular — reconhecível por quem vive ou visita a cidade, mas filtrada pela sensibilidade de quem decidiu observá-la demoradamente.
“Sob a Luz do Instante”
Esse encontro entre artista e território estará reunido na exposição “Porto Seguro: Sob a Luz do Instante”, que apresentará mais de 40 obras inspiradas na relação de Thiago com a cidade.
A abertura acontece na quinta-feira, 17 de setembro, às 18h, na Casa da Lenha, no Centro da cidade, com vernissage e encontro do artista com o público.
A exposição permanecerá aberta até 17 de novembro, oferecendo aos visitantes diferentes interpretações de paisagens, lugares e momentos de Porto Seguro.

Mais do que mostrar pinturas, a exposição propõe uma experiência de olhar.
É um convite para que moradores e visitantes desacelerem e percebam aquilo que a rotina costuma esconder: a delicadeza de uma determinada luz, o desenho de uma sombra, a mudança de cor do mar, a textura de uma parede antiga, o contraste entre o verde e o azul, a beleza de uma paisagem que muitas vezes se torna invisível justamente porque está todos os dias diante dos nossos olhos.
Quando a paisagem também pinta o artista
Talvez seja essa a maior força do trabalho de Thiago Castro: ao mesmo tempo em que ele pinta Porto Seguro, Porto Seguro também o transforma como artista.
A cidade deixa marcas em sua paleta, em suas escolhas, na maneira de perceber a luz e até na relação com o tempo.
Cada tela passa a ser, então, uma espécie de encontro.
De um lado, o artista com seus pincéis, suas cores e sua experiência de três décadas. Do outro, uma cidade que oferece mar, natureza, história, cultura e uma luminosidade própria.
Entre os dois nasce a pintura.
“Meu objetivo não é apenas pintar Porto Seguro, mas registrar a luz, a atmosfera e os instantes que fazem essa cidade ser única”, afirma Thiago.
A exposição conta com o apoio da Prefeitura de Porto Seguro, por meio da Superintendência de Cultura, e também reforça a Casa da Lenha como espaço de valorização e circulação da produção artística e cultural.
No fim, talvez seja esse o convite mais bonito que Thiago faz ao público: olhar novamente para aquilo que já conhece.

Porque Porto Seguro pode ser vista de muitas maneiras.
Pode ser destino turístico, patrimônio histórico, cidade de natureza exuberante, território de culturas diversas ou lugar de memória.
Mas, sob o olhar de um artista, ela pode ser também outra coisa:
uma cidade feita de luz, onde cada paisagem guarda um instante e cada instante pode se transformar em arte.