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Jerônimo desconhece Porto Seguro — ou prefere não enxergar a saúde que o município construiu?

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Declaração do governador sobre a inexistência de hospital municipal expõe, no mínimo, um preocupante desconhecimento da realidade local; enquanto a Prefeitura amplia sua rede, o hospital estadual convive com sucessivas crises

A declaração do governador Jerônimo Rodrigues (PT), durante o debate da Band Bahia, de que Porto Seguro não possui hospital municipal, provocou uma reação contundente do prefeito Jânio Natal (PL). E, independentemente da disputa política entre os dois grupos, há uma pergunta que precisa ser feita: como um governador pode falar sobre a saúde de um dos maiores e mais importantes municípios do extremo sul da Bahia sem conhecer minimamente a estrutura de atendimento existente na cidade?

Jânio foi direto ao rebater o governador: “Isso mostra que ele não conhece Porto Seguro e nem a Bahia”. Segundo o prefeito, a rede municipal dispõe de estrutura hospitalar com três centros cirúrgicos e já realizou quase 10 mil cirurgias que, na avaliação da administração municipal, deveriam ter sido absorvidas pelo Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães (HDLEM), unidade sob responsabilidade do Governo do Estado.

A questão, portanto, vai muito além de uma declaração feita em um debate eleitoral. Ela coloca frente a frente duas realidades da saúde pública de Porto Seguro.

De um lado, a Prefeitura que tem ampliado a própria estrutura para atender uma demanda crescente, construindo e reformando unidades, criando serviços especializados e investindo na descentralização do atendimento.

Do outro, um hospital estadual que, segundo críticas reiteradas da populção, atravessa problemas de gestão e funcionamento.

Enquanto o município constrói, o Estado administra a crise

O contraste é difícil de ignorar.

A Prefeitura afirma ter eliminado a fila reprimida de cirurgias e ampliado a oferta de procedimentos eletivos. Criou o Centro Médico do Baianão, reformou UPAs, implantou novas unidades básicas e ampliou a assistência nos distritos.

A Casa de Parto, no Parque Ecológico, é outro exemplo da expansão da rede municipal. A obra entrou em fase final ainda em março e foi apresentada oficialmente como parte do conjunto de investimentos da Prefeitura na saúde.

No Litoral Sul, a administração municipal também investiu na estrutura hospitalar. O Hospital de Especialidades Cirúrgicas foi concebido para atender moradores de Arraial d’Ajuda, Trancoso, Caraíva, Vale Verde, Itaporanga e outras localidades, com a proposta de aproximar o atendimento da população. A própria Prefeitura informou que a obra foi realizada com recursos próprios.

E há ainda novas UBSs, ampliações e projetos que buscam levar o atendimento para mais perto dos bairros e distritos.

Ou seja: a Prefeitura não está esperando que alguém venha resolver seus problemas. Está ampliando sua própria capacidade de atendimento.

E o HDLEM?

É exatamente aqui que a declaração do governador produz um efeito político ainda maior.

O Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães é uma unidade estadual. Portanto, sua gestão e seu funcionamento estão diretamente vinculados ao Governo da Bahia.

E o histórico recente da unidade não é exatamente um cartão de visitas para a gestão estadual.

Jânio acusa o hospital de enfrentar falta de insumos, ausência de especialistas e atrasos salariais. Segundo reportagens recentes, o prefeito já havia criticado a sucessão de gestores no hospital, mencionando três mudanças na administração em apenas nove meses.

É importante registrar que o Governo da Bahia contesta a narrativa de abandono e afirma ter investido mais de R$ 42 milhões no HDLEM desde 2023, incluindo obras, equipamentos e serviços. Entre as intervenções citadas pelo Estado estão ampliações das emergências, nova UTI adulta e implantação de serviços de alta complexidade.

Mas investimentos anunciados pelo governo não eliminam a necessidade de discutir a qualidade efetiva do atendimento. Dinheiro investido, obra inaugurada e equipamento instalado precisam se transformar em assistência funcionando na ponta.

E é justamente essa cobrança que permanece.

A pergunta que Jerônimo deveria responder

Se o governador afirma conhecer a realidade da saúde de Porto Seguro, deveria explicar por que o município precisou ampliar sua própria estrutura para absorver demandas que, segundo o prefeito, deveriam estar sendo atendidas pelo hospital estadual.

Deveria explicar também por que o HDLEM é alvo recorrente de críticas relacionadas à gestão.

E deveria, sobretudo, olhar para a população que utiliza o serviço diariamente.

Porque a saúde pública não pode ser avaliada apenas por números de investimentos ou inaugurações. Ela é medida pelo paciente que consegue fazer uma cirurgia, pela gestante que encontra atendimento, pelo cidadão que consegue um especialista e pela família que não precisa percorrer centenas de quilômetros atrás de assistência.

A resposta veio das urnas

Politicamente, Jânio Natal dispõe ainda de um argumento que não pode ser ignorado: foi reconduzido ao cargo de prefeito de Porto Seguro com uma votação expressiva e inédita.

O resultado eleitoral não transforma a administração municipal em unanimidade e tampouco significa que a saúde esteja livre de problemas. Nenhuma gestão pública está.

Mas o resultado das urnas revela que uma parcela majoritária do eleitorado aprovou o caminho escolhido pelo prefeito.

E isso torna ainda mais inadequada qualquer tentativa de retratar Porto Seguro como uma cidade sem estrutura ou sem investimentos na saúde.

A população vive a realidade local todos os dias.

Sabe onde existem UPAs. Sabe onde funcionam UBSs. Sabe onde consegue atendimento especializado. Sabe onde são realizadas cirurgias. E sabe, sobretudo, quais serviços funcionam e quais apresentam dificuldades.

Desinformação ou desconhecimento?

É aí que a declaração de Jerônimo ganha contornos políticos mais delicados.

Dizer que Porto Seguro não possui hospital municipal pode parecer apenas uma frase de debate eleitoral. Mas, para quem vive na cidade, a afirmação soa como uma demonstração de desconhecimento de uma realidade que o governador deveria conhecer profundamente.

Porto Seguro não é uma cidade qualquer. É um dos principais municípios turísticos da Bahia, possui população numerosa, extensa área territorial, distritos distantes da sede e uma demanda de saúde proporcional à sua importância regional.

Ignorar a estrutura que vem sendo construída pelo município significa ignorar uma parte importante da realidade local.

E é nesse contexto que Jânio Natal aproveitou a oportunidade para devolver a crítica na mesma moeda: antes de falar sobre a saúde municipal, o governador deveria conhecer Porto Seguro e olhar para o hospital que está sob responsabilidade direta do Estado.

A provocação é politicamente certeira.

Se Jerônimo quer discutir saúde pública em Porto Seguro, a cidade está pronta para o debate. Mas o debate precisa começar pela realidade — e não por uma informação equivocada sobre a existência de um hospital municipal.

Porque, enquanto o discurso político viaja de um debate para outro, é a população quem continua precisando de atendimento.

E, nesse quesito, não basta dizer que o Estado investiu.

É preciso fazer o serviço chegar a quem está na ponta.

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