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Eu, você e o grande milionário da minha cidade

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Os ricos da minha cidade se acham muito ricos; num surto ilusório, talvez acreditem que sejam. Mas, ao lado dos bilionários, a fortuna deles é irrisória. Existe uma distância tão absurda entre o patrimônio de quem vive numa cidade e o dinheiro acumulado por uma elite global que parece não caber na imaginação de ninguém.

Não estou falando só de gente que tem mansão, carrão ou empresa. Estou falando de bilionários que controlam plataformas digitais, os banqueiros, os senhores das telecomunicações, dos computadores, celulares, dos dados, da inteligência artificial e de uma parte enorme da economia mundial. São os donos das big techs, os grandes banqueiros, os proprietários dos meios de comunicação, os grandes investidores e uma nova burguesia que nasceu com a tecnologia, mas que usa a própria para concentrar ainda mais o poder.

Essa gente não quer pagar imposto como todo mundo. Quer privilégio. Quer empresa em paraíso fiscal. Quer lucro sem responsabilidade. Quer monopólio. E quer que o resto da população pague o pato. Há bilionários que, na prática, pagam impostos equivalentes a quase nada do que possuem, às vezes menos de meio por cento da própria fortuna. Isso acontece porque eles transformam dinheiro em empresa, empresa em fundo, fundo em paraíso fiscal e paraíso fiscal em mais dinheiro.

Enquanto isso, o trabalhador comum paga imposto no salário, no consumo, na conta de luz, no combustível, no aluguel e em tudo que compra. É o trabalhador segurando essa pequena elite nas costas.

E o pior é que essa riqueza não fica parada. Ela compra influência. Financia campanha, pressiona governo, destrói países, contrata lobista e compra mídia. Colonizam, escravizam, implodem a sociedade, levam suas riquezas e esmagam os que tentam diminuir a desigualdade social. Eles necessitam da miséria, porque a miséria é o combustível para terem mão de obra barata.

Quando se fala em guerra, sanção, crise, dívida, austeridade ou devastação ambiental, não se pode fingir que isso acontece longe dos grandes interesses econômicos.

A desigualdade não é um acidente. Desde 2015, a fortuna do 1% mais rico do mundo cresceu em mais de trinta e três trilhões de dólares. Só esse aumento daria para acabar com a pobreza mundial, pelo que diz o limite usado pelo Banco Mundial, mais de vinte vezes. Enquanto isso, bilhões de pessoas continuam vivendo na pobreza. Não é falta de riqueza no mundo. É riqueza demais parada nas mãos de poucos.

Também não é só o dinheiro. É o planeta. O 1% mais rico é responsável por cerca de um quinto do aquecimento global ocorrido desde 1990. E os 0,1% mais ricos poluem mais do que bilhões de pessoas mais pobres. Ou seja: quem menos polui paga primeiro a conta da seca, da enchente, do calor absurdo, da perda de safra e da destruição das comunidades.

Por isso, quando eu falo dos bilionários, não estou falando de inveja. Estou falando de poder. Uma pessoa pode ter muito dinheiro e ainda assim viver dentro de certos limites. Mas quando alguém acumula bilhões, essa fortuna deixa de ser apenas fortuna: vira capacidade de comprar decisões, moldar leis, dominar mercados, vigiar populações e influenciar o futuro de países inteiros.

Diante dessa elite global, somos todos pequenos. Eu, você e o grande milionário da minha cidade.

Por Cristóvão Moura, sociólogo, bacharel em comunicação social, jornalista profissional DRT 227 MG, pós-graduado pela UFJF, professor e educador.

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