R$ 143 milhões que viraram R$ 143 mil: quando a declaração de bens vira motivo de piada
Transparência eleitoral não pode ser tratada como brincadeira; discrepâncias patrimoniais exigem explicações convincentes
Há coisas que a política explica. Outras, nem tanto.
A declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral deveria ser um exercício de transparência, responsabilidade e respeito ao eleitor. Afinal, quem pretende ocupar um mandato público e administrar ou fiscalizar recursos que pertencem à sociedade precisa, antes de tudo, demonstrar que não tem nada a esconder.
Na Bahia, porém, algumas declarações patrimoniais apresentadas por candidatos vêm provocando uma mistura de surpresa, incredulidade e indignação.
O caso mais emblemático é o de um pré-candidato a federal de família tradicional e muito conhecida no sul e extremo sul baiano, que inicialmente informou possuir patrimônio de aproximadamente R$ 143 milhões. Depois, veio a explicação: teria sido um simples erro de digitação. O patrimônio verdadeiro, segundo o próprio candidato, seria de R$ 143 mil.
Convenhamos: entre R$ 143 milhões e R$ 143 mil existe uma diferença de aproximadamente mil vezes.
Um erro de digitação?
Pode ser. Mas é justamente por ser uma diferença tão extraordinária que a explicação precisa ser igualmente convincente.
E a história não termina aí.
Outro integrante da mesma tradicional família política baiana, sobrinho do candidato anteriormente referido, também candidato a deputado federal e com extensa trajetória política e empresarial, teria declarado patrimônio de aproximadamente R$ 120 mil.
A informação naturalmente provoca questionamentos.
Não se trata de dizer que determinado imóvel, fazenda, empresa ou outro patrimônio pertence necessariamente ao candidato. Isso precisa ser comprovado documentalmente. Mas também não se pode ignorar aquilo que é conhecido publicamente e deixar de perguntar: como uma trajetória empresarial e política associada a um patrimônio expressivo resulta em uma declaração patrimonial tão modesta?
A conta que não fecha
É aí que entra o eleitor.
A população não é ingênua. Conhece seus políticos, acompanha suas trajetórias, sabe onde estão determinados empreendimentos, conhece famílias tradicionais e observa o crescimento patrimonial de grupos que há décadas ocupam espaços de poder.
Por isso, quando os números apresentados oficialmente parecem não conversar com a realidade conhecida, surge inevitavelmente a desconfiança.
E desconfiança, em uma eleição, não é um detalhe.
É preciso lembrar que declaração de bens não é uma peça de propaganda. É um documento oficial apresentado à Justiça Eleitoral. Se houve erro, que seja explicado. Se houve necessidade de correção, que se corrija. Se existem bens que não pertencem ao candidato, que isso seja demonstrado.
O que não pode prevalecer é a sensação de que existem dois patrimônios: o declarado e o conhecido pela sociedade.
A Justiça precisa olhar para os números
A discussão não é partidária. Também não deveria ser utilizada como arma eleitoral contra este ou aquele candidato.
A questão é muito maior: qual é o limite da transparência exigida de quem pede o voto do cidadão?
Se uma declaração de R$ 143 milhões é posteriormente transformada em R$ 143 mil, é natural que a sociedade queira saber o que aconteceu.
Se outro candidato apresenta patrimônio de R$ 120 mil enquanto existem dúvidas públicas sobre a dimensão de seus bens e atividades empresariais, também é legítimo pedir esclarecimentos.
Cabe aos órgãos competentes analisar documentos, registros e eventuais questionamentos formais. E, se não houver irregularidade, que isso fique igualmente claro.
Porque transparência também significa dar ao candidato o direito de provar que sua declaração está correta.
O eleitor merece respeito
No final, não se trata apenas de milhões ou milhares de reais.
Trata-se de credibilidade.
Quem pretende representar milhares de baianos no Congresso Nacional precisa entender que o eleitor tem o direito de questionar, conferir e cobrar explicações.
Não basta pedir confiança.
É preciso merecê-la.
E, quando os números oficiais provocam mais dúvidas do que certezas, a melhor resposta não é o silêncio, muito menos explicações que aumentem a perplexidade.
É apresentar documentos, esclarecer os fatos e mostrar, com transparência, onde está cada real declarado.
A eleição passa. O mandato termina. Mas a verdade sobre o patrimônio permanece registrada.
E, neste caso, talvez seja exatamente isso que o eleitor baiano esteja esperando: que alguém consiga explicar, de maneira convincente, como R$ 143 milhões podem virar R$ 143 mil — e como patrimônios publicamente atribuídos a uma tradicional família política podem resultar em declarações tão distantes daquilo que a sociedade imagina conhecer.
Porque, em uma democracia, o eleitor pode até perdoar um erro de digitação. O que ele dificilmente perdoa é a sensação de que estão tentando fazê-lo de bobo.