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Da “terra arrasada” russa ao bloqueio do estreito de Ormuz no Irã, como o tempo e a paciência são aliados da verdade

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Para quem não sabe, Napoleão Bonaparte não nasceu imperador, nasceu como um jovem corso ambicioso, cujo talento se esfriava apenas no ritmo de sua própria ascensão.

Mas cada suspiro ele ia de capitão a general, subindo suas trincheiras da República Francesa. Sua luta nunca foi por um rei específico, mas por uma ideia: a de que um homem como ele, na sua natureza da baixeza de pobreza e física, poderia escrever o destino de um povo. Sua genialidade surgia das guerras revolucionárias. Da precisão estratégica, do ataque rápido, das manobras laterais com sua cavalaria e de suas vitórias improváveis. Exércitos eram dizimados antes mesmo que percebessem o que havia acontecido. Do mais temido general da Europa, galgou, aos poucos, o título de Imperador.

No meio dessa trajetória de conquista, entrou em sua vida Josefina de Beauharnais, uma mulher aristocrata refinada, mais velha, e com uma vida social intensa. E da volúpia insana, Napoleão se apaixonou de forma doentia.

Josefina o traiu com diversos homens. Ainda assim, o pérfido escolheu aceitá‑la.

Ao longo de seu trajeto, Josefina não podia mais ter filhos e a pressão por um herdeiro chegou a Napoleão.

Mesmo amando Josefina, ele separou e casou com a jovem arquiduquesa da Áustria, Maria Luísa da Áustria, escolhida por aliança de guerra e por inimigo em comum. Napoleão conseguiu seu herdeiro e não conseguiu nunca tirar Josefina do coração.

Capitão da República, general vitorioso, estrategista, corno, pai e imperador teimoso, que se voltou para a Rússia em 1812, certo de que as mesmas estratégias que o levaram de Austerlitz a Jena dariam certo em qualquer lugar do mundo. Ledo engano.

Napoleão entrou com a maior brigada militar até então conhecida pela humanidade na Rússia com cerca de 600 mil homens, algo extremamente grandiloquente na época assim como seu ego.  Um exército formado por franceses, italianos, alemães, poloneses e tantos outros povos unidos sob seu delírio colonizador. O plano era chegar em Moscou. Lá, bastaria derrubar o inimigo e ditar o seu destino.

Sob o comando do czar Alexandre I, os russos recuaram. Quando Napoleão chegou na cidade, ele viu Moscou incendiada. A princípio, penso eu e tantos historiadores, que ele deve ter ficado atônito, no mínimo inerte e estupefato por alguns minutos até entender o que realmente estava acontecendo.

Os próprios russos queimaram Moscou. E não foi só isso, incendiaram todos os armazéns, suprimentos e a escarça agricultura, derrubaram pontes e colocaram veneno nos rios. Moscou, então, uma das maiores cidades russas, com mais de 200 mil habitantes, foi abandonada pela elite, pela burguesia e pela população em geral. Quando Napoleão chegou, em setembro de 1812, encontrou uma cidade em chamas, sem comida, sem exército e sem rei à sua espera.

Fico imaginando a cara de Napoleão frente a seu exército todo. O homem que sempre soubera atacar o ponto fraco do adversário, descobriu a duras penas que sempre existe um estrategista mais astuto. Tentou esperar, negociar, mas o czar Alexandre permaneceu firme: não aceitaria paz alguma, nem diante da maior força armada que o mundo já vira. A Rússia apostava em algo que muitos estrategistas ocidentais subestimavam: a paciência do frio, a fome como arma, o silêncio como resposta.

É a partir desse ponto que nasce a beleza poética da estratégia do Império Russo, o plano da “Terra Arrasada”.  Algo tão sonoramente místico como se soprasse aos ouvidos de Napoleão: “podem ser mais fortes do que eu, mas eu sou o controlador do meu destino e do seu”.

Dizem que o tempo é aliado do honrado, do justo e da verdade. Dizem também que a paciência é uma virtude. À medida que o inverno avançou, o exército de Napoleão se desfez. As doenças se espalharam, os suprimentos acabaram, o frio cortante congelou homens e cavalos, e o que restava foi dizimado por guerrilhas, batalhas esparsas e pela própria exaustão. Polacos, russos, camponeses com fuzis, todos pareciam ter o mesmo coração: recusar‑se a servir àquele destino que Napoleão queria impor.

Foram 600 mil, voltaram pouco mais de 20 mil. A Rússia não venceu porque deu mais tiros, mas porque entendeu que, às vezes, a maior vitória é se esconder. Foi o czar Alexandre, na sua firmeza, na sua recusa à negociação humilhante e na sua crença na paciência e do frio que estava por vir, que personificou essa estratégia com dignidade *podesvetchik”   {um visionário; iluminado) se tornou, então, não apenas um país, mas um conceito: a pátria que prefere ser arrasada a ser subjugada, que aceita a destruição do presente para que o futuro permaneça seu.

Depois da derrota em doses homeopáticas para os russos e o fim da aura de invencibilidade de Napoleão, as coalizações europeias se reergueram. O imperador francês foi derrotado em Leipzig (1813) e depois em Waterloo (1815). Seu final foi o exílio, primeiro para a ilha de Elba, depois para a remota Santa Helena, no Atlântico Sul, onde passou os últimos anos – acredito que refletindo sobre tudo o que conquistara e tudo o que perdera. A história o retratou como um herói trágico, um gênio da guerra que subestimou o poder de um povo que escolheu o silêncio, o frio e a própria terra como seus maiores aliados.

Permanece, assim, a lição mais abissal deste capítulo: Napoleão, o prócer que emergia de toda topografia, aniquilando baluartes, transpondo caudais, controlando hegemonias, foi prostrado por um autocrata que recusou o embate em idênticos termos. Alexandre I, com sua sobriedade, sua confiança na Rússia e sua inteira submissão à tática da terra devastada, demonstrou que, por vezes, o supremo gênio castrense não reside no que mais ceifa, mas no que mais domina a espera, o silêncio e, no instante propício, permite que o antagonista se dissolva em suas próprias quimeras.

De modo análogo, o Irã, na conjuntura de 2026, segue a estratégia de Alexandre: com paciência serena e adesão ao amor a sua terra, afinal são os persas, um povo de 3. 000 mil anos, de Ciro o Grande. Nada de assimetrias de guerrilhas, proxies e dissuasão nuclear latente, espera calmamente, enquanto EUA e Israel, como Napoleões modernos, gastam recursos em ataques diretos e ilusões de vitória rápida no Oriente Médio, o Irã vai na veia, no poder econômico, fechando parcialmente o Estreito de Ormuz, exigindo que usuários retirem laços com Israel e EUA para liberação de petroleiros; realizando ataques a navios-tanque via drones e minas, mirando suprimentos de Israel e aliados ocidentais.

Assim, o embate naval persa transmuta-se em sinfonia de paciência ancestral: os preços do óleo negro ascendem em vinte por cento, qual fênix incendiada, compelindo rotas a dançarem em desvios labirínticos e sanções a rugirem em retaliação efêmera. Eis a terra arrasada dos mares, ecoando a eterna vigilância de Ciro, onde a espera é cetro e o silêncio, poesia letal.

Por Cristóvão Moura – *Cristóvão Moura é Jornalista MG 12227, cientista social, professor de Sociologia, Comunicação, Letras e Filosofia e estudante de História

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