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Obama e Trump: a mesma lógica imperial, com roupagens diferentes

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A mídia e as redes sociais já começaram a apresentar Obama como uma das principais lideranças do Partido Democrata e como principal apoiador do novo candidato do partido contra Trump. Obama não pode mais disputar a presidência, mas seu nome segue sendo usado como referência e como símbolo de oposição. Antes de engolir essa retórica, vale lembrar o que ele fez quando esteve no poder.

Obama não é só um “carinha educado”. Pode não ter a grosseria de Trump, mas essa aparência mansa engana muita gente. O jeito carismático e gentil não apaga as decisões que arruinaram vidas e países inteiros.

Trump, esse sim, não disfarça nada: grosseria, soberba, arrogância e empáfia. Trata quem pensa diferente com desdém, humilhação pública e ataques pessoais. Somam-se as ameaças constantes e aquele ar de superioridade tão típico de supremacistas racistas.

Trump conviveu publicamente com Epstein por anos e aparece várias vezes nos arquivos e depoimentos do caso. O que rolava na ilha de Epstein era sabido: abuso sexual, exploração, tráfico de pessoas, pedofilia e até suspeitas de vampirismo e canibalismo. Crimes dos mais abjetos que a humanidade já produziu. Os arquivos existem. O que falta é coragem para investigar, julgar e condenar todo mundo que teve ligação com Epstein. O mesmo Epstein que morreu de forma misteriosa na cadeia. E Trump está envolvido até o pescoço.

Por outro lado, Obama, em 2011, autorizou ataques dos Estados Unidos na Líbia e puxou politicamente a intervenção da Otan. E a Otan não é uma entidade benevolente: é uma aliança militar de potências ocidentais que carregam no currículo colonização, escravidão e o saque das riquezas da África, da Ásia e da América Latina e principal produtora de guerras da humanidade, liderada pelos EUA.

Antes da guerra, a Líbia tinha o maior Índice de Desenvolvimento Humano da África. Saúde, educação, moradia e serviços públicos, Água e Luz, ou gratuitos ou subsidiados pelo governo faziam parte do cotidiano da população.

Venderam a intervenção com a falácia que estariam “protegendo civis”, com base na Resolução 1973 da ONU. O que sobrou foi outra coisa: guerra civil, milícias armadas e serviços públicos desmoronando no caos deixado pela ação liderada pelos Estados Unidos.

Depois disso, a Líbia afundou de vez. Voltou o tráfico de pessoas. Sim, tráfico humano. Migrantes passaram a ser vendidos, trancados em cativeiro e jogados no trabalho escravo. Essa é a Líbia que os Estados Unidos deixaram. Essa é a Líbia que Obama deixou.

Obama disse que agiu para “proteger civis”. O país terminou rachado entre governos rivais, refém de milícias e marcado pela escravidão de migrantes.

Corre por aí a história de que Gaddafi caiu porque quis criar uma moeda africana lastreada em ouro. Essa versão é muito repetida, mas não tem comprovação documental sólida. Nem precisa dela: a Líbia arrasada e o retorno da escravidão já dizem tudo.

A história das intervenções

Os Estados Unidos têm um longo histórico de meter o bedelho em países que tentam diminuir a desigualdade e controlar as próprias riquezas. Petróleo, terras raras, diamantes, ouro, cobalto e outros recursos naturais sempre atraíram a cobiça das potências ocidentais.

Quando um país resolve repartir riqueza, fortalecer serviços públicos ou sair da órbita dos Estados Unidos, dos bancos internacionais e do dólar, a resposta costuma vir em forma de golpe, sanção, financiamento de opositores, bombardeio e guerra.

E foi assim: matando Muammar Gaddafi, na Líbia. E foi assim: matando Patrice Lumumba, no Congo. E foi assim: matando Thomas Sankara, no Burkina Faso. E a lista não para por aí.

O peso da colonização

E isso não nasceu ontem. A vontade de dominar povos e roubar riquezas já movia as grandes potências há séculos. Inglaterra, Espanha, Portugal, França, Bélgica, Holanda e Alemanha espalharam pelo mundo um jeito cruel de se apropriar do que não lhes pertencia: invadiam terras, escravizavam gente e impunham língua, religião e fronteiras desenhadas de cima para baixo.

A Inglaterra, por exemplo, plantou sua bandeira em uma fatia gigantesca da África. Passou por Gâmbia, Serra Leoa, Gana, Nigéria, Camarões, Quênia, Uganda, Tanzânia, Egito, Sudão, Somália, África do Sul, Zâmbia, Zimbábue, Malawi, Lesoto, Botsuana e Essuatíni.

E não ficou só na África. A Índia foi uma das maiores colônias do império britânico. O domínio inglês alcançou ainda terras que hoje formam Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka, Mianmar, Malásia, Singapura e Hong Kong.

A Espanha deixou sua marca na América, do México até o sul do continente. Esteve no Caribe, na América Central e em países como Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai, além de partes do que hoje são os Estados Unidos. Do outro lado do mundo, também dominou as Filipinas.

Portugal colonizou o Brasil e, na África, deixou sua presença em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Na Ásia, esteve em Goa, na Índia, em Macau, na China, e em Timor-Leste.

A França também pegou sua fatia do bolo. Dominou Argélia, Marrocos, Tunísia, Senegal, Mali, Costa do Marfim, Camarões, Madagascar e grandes áreas da África Ocidental e Central. Na Ásia, controlou Vietnã, Laos e Camboja.

A Bélgica ficou com o Congo. A Holanda dominou a Indonésia e o Suriname, e também teve presença em partes da África do Sul. A Alemanha entrou nessa corrida com territórios como Namíbia, Togo, Camarões e áreas da África Oriental.

Essas potências não têm moral nenhuma para se vender como defensoras da humanidade. Um exemplo basta: a Bélgica de Leopoldo II transformou o Congo em uma máquina de extrair borracha, impor trabalho forçado, mutilar e matar.

A estimativa mais citada fala em cerca de 10 milhões de mortes no Congo sob Leopoldo II. Outros pesquisadores chegam a números bem maiores, já que não existem registros populacionais confiáveis daquele período.

Para dar uma noção, o Holocausto nazista matou cerca de 6 milhões de judeus, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelos nazistas.

Ou seja, só a estimativa mais citada para o Congo já representa um Holocausto e meio a mais. Isso não diminui o Holocausto. Mostra o tamanho do crime colonial no Congo, crime que segue pouco lembrado e pouco ensinado. Porque são negros. Porque, se fossem brancos, já teria saído uma enxurrada de filmes, livros e documentários, como aconteceu com a Segunda Guerra.

A Líbia destruída

De volta ao assunto inicial: a Líbia foi arrasada pelos Estados Unidos e pelos países que formam a Otan. Aquilo não foi ação humanitária nenhuma. Foi uma intervenção que deixou um país afogado em guerra permanente.

Hoje, como disse antes, a Líbia vive o fundo do poço: tráfico humano, escravidão e migrantes tratados como mercadoria. E, como se não bastasse, Obama ainda tem o Prêmio Nobel da Paz, recebido em 2009, antes da intervenção na Líbia, enquanto o país carrega o retorno de alguns dos piores crimes da história recente.

A Líbia não foi jogada no caos por acaso. Foi desestabilizada por uma escolha política de intervenção militar, liderada pelos Estados Unidos e executada por uma coalizão ocidental.

Por isso, antes de admirar Obama só pela educação e pela cordialidade, é preciso lembrar da Líbia. Sabemos que Trump é o pior que existe. Mas não se enganem com Obama e com o que ele fez com a Líbia, com o tanto de morte que ele causou. Muitas mortes, muitas guerras, muito sangue derramado foram provocados pelos democratas.

Por Cristóvão Moura, sociólogo, bacharel em Comunicação, pós-graduado pela UFJF, jornalista profissional, 12.227-MG. Professor, educador e escritor.

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