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Debate final: Lula e Flávio Bolsonaro travam duelo decisivo na Globo e miram voto dos indecisos

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Confronto teve embates sobre economia, segurança, saúde e acusações pessoais; Lula explorou experiência e histórico do adversário, enquanto Flávio atacou custo de vida e endividamento das famílias

O último grande confronto antes das urnas colocou frente a frente, na noite desta sexta-feira (23), os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Realizado pela Rede Globo e mediado pelo jornalista César Tralli, o debate ganhou importância ainda maior diante do equilíbrio da disputa eleitoral e da batalha pelos últimos votos dos indecisos.

Diferentemente de outros momentos da campanha, o encontro apresentou períodos de maior discussão sobre propostas, embora não tenham faltado ataques, acusações e tentativas dos dois candidatos de explorar pontos considerados vulneráveis do adversário.

Lula procurou usar principalmente sua experiência administrativa, os programas sociais e os resultados de seus governos para sustentar que conhece o funcionamento da máquina pública. Flávio Bolsonaro, por sua vez, buscou apresentar-se como representante da mudança, explorando temas sensíveis para o governo, principalmente custo de vida, endividamento das famílias, contas públicas e segurança.

O melhor momento de Lula

Um dos momentos de maior repercussão ocorreu depois de Flávio afirmar que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”, numa referência à deficiência física do presidente, que perdeu parte de um dedo em um acidente de trabalho.

Lula reagiu duramente, lembrou sua origem como trabalhador e exigiu respeito. Flávio posteriormente pediu desculpas.

O episódio acabou se tornando importante para os dois. Lula conseguiu transformar uma provocação pessoal numa defesa de sua própria biografia, enquanto Flávio, percebendo o risco da declaração, procurou encerrar rapidamente a polêmica ao pedir desculpas.

Um acompanhamento realizado pela Quaest com 300 pessoas durante o debate apontou justamente esse episódio como um dos momentos de maior impacto entre os eleitores acompanhados. Segundo análise do diretor do instituto, Felipe Nunes, a reação de Lula teve forte avaliação positiva, enquanto o pedido de desculpas também ajudou Flávio a recuperar terreno.

Outro momento favorável ao presidente aconteceu na discussão sobre segurança pública. Lula trouxe para o confronto o caso da menina Ana Clara, de cinco anos, morta por um tiro de fuzil em 2021, e questionou a atuação de Flávio na defesa do policial acusado. A mãe da criança estava no estúdio. O episódio colocou o candidato do PL na defensiva.

Flávio cresce quando debate economia

Se Lula conseguiu impor dificuldades ao adversário em determinados momentos, Flávio Bolsonaro encontrou seu terreno mais favorável quando direcionou a discussão para a economia e, principalmente, para aquilo que chega diretamente ao bolso da população.

Ao falar sobre perda do poder de compra e endividamento das famílias, Flávio utilizou uma frase de efeito: “Antes, se parcelava a geladeira, agora se parcela o que está na geladeira”. A estratégia foi confrontar os números apresentados pelo governo com a percepção cotidiana do eleitor nos supermercados e nas contas domésticas.

Flávio também pressionou Lula sobre dívida pública e situação fiscal. Análise publicada pela Folha de S.Paulo considerou esse um dos momentos em que o candidato do PL conseguiu colocar o presidente em dificuldade.

O candidato ainda apresentou propostas mais duras para a segurança pública, defendendo, entre outras medidas, penas maiores para determinados crimes e redução da maioridade penal para 14 anos em casos de estupro. Lula, por outro lado, defendeu a PEC da Segurança e disse que pretende criar o Ministério da Segurança Pública caso a proposta seja aprovada.

Houve vencedor?

Determinar um vencedor absoluto de um debate político é sempre subjetivo — e as análises publicadas após o confronto refletem isso.

A Folha avaliou que Lula venceu “por pontos”, enquanto comentaristas da Jovem Pan apresentaram avaliações diferentes sobre quem teria levado vantagem. Uma análise publicada pelo Brasil de Fato também apontou vantagem para Lula. Ou seja: até mesmo entre analistas e veículos de perfis editoriais distintos, a leitura sobre o desempenho dos candidatos não é uniforme.

Talvez mais importante do que declarar um vencedor seja observar onde cada candidato conseguiu cumprir seu objetivo.

Lula conseguiu utilizar sua experiência e sua biografia política, além de colocar Flávio na defensiva em temas específicos. Flávio, por sua vez, conseguiu explorar questões potencialmente incômodas para quem está no governo, especialmente custo de vida, endividamento e situação das contas públicas.

E os indecisos?

É justamente nesse grupo que o debate poderá produzir algum efeito eleitoral.

O acompanhamento qualitativo de grupos de indecisos mostrou que o desempenho dos candidatos variou ao longo da noite. Em determinados momentos Flávio foi melhor recebido; em outros, Lula cresceu. No terceiro bloco, porém, grupos acompanhados por uma pesquisa qualitativa citada pelo Metrópoles avaliaram Lula de maneira mais favorável, especialmente quando o presidente questionou posições anteriores de Flávio sobre salário mínimo, aposentadorias e licença-maternidade.

O monitoramento da Quaest também registrou Flávio começando melhor, Lula crescendo quando falou sobre o Nordeste e uma mudança importante na percepção após o episódio dos “nove dedos” e do pedido de desculpas. Depois daquele momento, Lula teria permanecido mais bem avaliado entre os participantes monitorados.

Isso não significa, porém, que essas avaliações possam ser automaticamente transformadas em votos. Grupos qualitativos e monitoramentos em tempo real ajudam a identificar reações, mas não funcionam como uma pesquisa eleitoral representativa de todo o país.

Debate pode decidir a eleição?

Em uma eleição equilibrada, qualquer movimento pequeno pode ganhar enorme importância.

O debate dificilmente provoca uma migração gigantesca de votos a apenas dois dias da eleição. A maior parte dos eleitores chega à reta final com posição definida, principalmente numa disputa tão polarizada.

Mas uma eleição apertada não exige uma grande mudança. Alguns pontos — ou mesmo frações de ponto — podem fazer diferença.

Por isso, o maior efeito do confronto da Globo pode ocorrer em três grupos: os verdadeiramente indecisos, os eleitores que ainda admitem mudar de candidato e aqueles que pensavam em votar branco, nulo ou simplesmente não comparecer.

Para esses brasileiros, a última imagem deixada pelos candidatos pode pesar.

Lula terminou o debate tentando convencer o eleitor de que experiência, programas sociais e conhecimento da máquina pública representam maior segurança para o país. Flávio Bolsonaro encerrou sua participação apostando no sentimento de mudança e na insatisfação de uma parcela da população com a economia, a segurança e o atual governo.

Depois do último duelo na televisão, não haverá outro grande confronto entre os dois.

Agora, a palavra final pertence às urnas.

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