O fim de um ciclo? As urnas dão o que parece ser o tiro de misericórdia na família Pinto
O fim de um ciclo? As urnas dão o que parece ser o tiro de misericórdia na família Pinto
Outrora uma das mais poderosas e influentes famílias políticas do Sul e Extremo Sul da Bahia, os “Pintos” amargam nova derrota nas urnas e veem encolher, eleição após eleição, o império político construído ao longo de décadas
Há famílias que fazem história na política. Há outras que, em determinado momento, parecem ser a própria política de uma região.
Durante décadas, esse foi o caso da família Pinto, conhecida no Sul e Extremo Sul da Bahia simplesmente como os “Pintos”. O grupo chegou a construir uma das mais impressionantes estruturas de poder político da região, elegendo prefeitos, deputados, vereadores e colocando aliados, amigos e parentes em posições estratégicas.
Mas a eleição deste domingo, 4 de outubro, pode ter representado mais do que uma derrota eleitoral.
Pode ter sido o tiro de misericórdia em um ciclo de poder que há algum tempo vem dando sinais de esgotamento.
Os números são eloquentes.
De império político a votação inexpressiva

O nome que durante anos foi apontado como o grande mentor, idealizador e arquiteto do projeto político da família, o ex-deputado federal Uldurico Pinto, obteve apenas 3.233 votos na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados.
É uma votação que impressiona não pelo tamanho, mas pela pequenez diante da trajetória do candidato e do poder político que a família chegou a exercer.
O resultado fica ainda mais simbólico quando se observa que a votação de Uldurico foi inferior à de muitos candidatos a vereador em municípios que, em outros tempos, estiveram sob influência ou administração do grupo.
Seu sobrinho, Ubaldino Júnior, ex-prefeito de Porto Seguro por dois mandatos e também ex-deputado, conseguiu uma votação maior: 8.658 votos, dos quais 7.355 foram obtidos justamente em Porto Seguro, município que governou durante oito anos.
Mesmo assim, o resultado ficou muito distante do capital político que o sobrenome Pinto representava em outros tempos.
Uma ascensão meteórica
A história dos “Pintos” na política baiana é marcada por uma ascensão tão rápida quanto impressionante.
Há cerca de duas décadas, o grupo conseguiu construir uma extensa rede de influência no Sul e Extremo Sul da Bahia, elegendo prefeitos, deputados e vereadores, muitos deles integrantes da própria família e outros ligados por relações de amizade, parentesco ou alianças políticas.
Era uma verdadeira máquina política regional.
O sobrenome Pinto abria portas, reunia grupos, construía candidaturas e parecia possuir força suficiente para sobreviver a qualquer adversidade eleitoral.
O poder, entretanto, como ensina a própria história política, pode produzir um efeito perigoso: quando se transforma em convicção de que é permanente, começa a perder a capacidade de perceber os sinais de desgaste.
E os sinais começaram a aparecer.
A ambição política e a sucessão de crises

O declínio não aconteceu de uma hora para outra.
Foi sendo construído ao longo dos últimos pleitos, em meio a derrotas eleitorais, perda de espaço e episódios envolvendo integrantes do grupo que passaram a frequentar o noticiário policial e judicial.
Investigações, acusações de corrupção e improbidade administrativa, afastamentos de cargos e decisões judiciais atingiram diferentes integrantes e aliados ligados ao universo político da família.
Um dos episódios mais graves envolveu Uldurico Júnior, que acabou preso em meio a investigações relacionadas a crimes e fugas de unidade prisional em Eunápolis, conforme investigações das autoridades policiais e do Ministério Público.
Independentemente do desfecho individual de cada processo, o conjunto desses episódios produziu um efeito político evidente: o sobrenome, antes associado principalmente a poder e influência, passou também a carregar o peso de controvérsias e desgastes acumulados.
E política, como se sabe, é essencialmente memória.
O eleitor pode perdoar uma derrota. Pode até perdoar uma escolha equivocada.
Mas dificilmente perdoa indefinidamente aquilo que interpreta como excesso de poder, arrogância ou abuso de confiança.
O poder subiu à cabeça?
Talvez essa seja uma das perguntas que o próprio grupo precise fazer.
A trajetória dos “Pintos” apresenta uma característica curiosa: a velocidade da ascensão parece ter sido acompanhada pela velocidade da queda.
Em determinado momento, a família parecia capaz de eleger quem quisesse.
Depois, passou a lutar para eleger os próprios integrantes.
O que antes era domínio regional transformou-se em disputa pela sobrevivência política.
E a eleição deste domingo parece ter levado esse processo a um novo patamar.
Uldurico Pinto, o grande estrategista da construção do grupo, ficou com apenas 3.233 votos.
Ubaldino Júnior, que chegou a comandar Porto Seguro por dois mandatos, terminou com 8.658 votos em todo o Estado.
São números que falam por si.
Porto Seguro também deu seu recado
O caso de Ubaldino Júnior é particularmente emblemático.
Dos 8.658 votos obtidos pelo candidato, 7.355 vieram de Porto Seguro, cidade que administrou por dois mandatos.
Mesmo contando com esse patrimônio eleitoral, o resultado não foi suficiente para recolocá-lo na Câmara dos Deputados.
É como se a própria cidade que um dia representou uma das principais bases políticas do grupo estivesse dizendo, através das urnas, que o tempo político mudou.
A velha estrutura já não funciona como funcionava.
Os antigos métodos de mobilização já não produzem os mesmos resultados.
E o eleitorado parece muito menos disposto a simplesmente seguir sobrenomes.

O império caiu?
Talvez seja cedo para decretar a morte definitiva de uma família que, durante décadas, demonstrou enorme capacidade de sobrevivência política.
Mas uma coisa parece indiscutível: o império político dos Pintos não é mais aquele.
A estrutura que chegou a dominar municípios, eleger parlamentares e influenciar sucessões municipais foi drasticamente reduzida.
O que existe hoje é uma sombra do poder que um dia foi exercido.
E a eleição deste domingo pode ter sido justamente o momento em que essa realidade deixou de ser apenas uma percepção dos adversários para se transformar em número oficial nas urnas.
A resposta das urnas
Se o objetivo das candidaturas de Uldurico Pinto e Ubaldino Júnior era medir a força eleitoral do grupo e testar a viabilidade de novas postulações a mandatos eletivos, o eleitor deu uma resposta bastante clara.
Não foi uma resposta de advertência.
Foi uma resposta contundente.
Os números sugerem que o ciclo político construído pelos “Pintos” ao longo de décadas chegou ao limite — ou, no mínimo, entrou em uma fase de profunda irrelevância eleitoral.
A pergunta agora não é mais se a família ainda possui força para comandar a política regional.
A pergunta é se ainda possui força suficiente para permanecer relevante.
E, neste domingo, as urnas parecem ter respondido:
o ciclo se encerrou, o império caiu e reconstruir o que foi perdido será uma tarefa muito mais difícil do que construir foi no passado.
A política, afinal, tem uma característica implacável.
Nenhum império é eterno.
E os “Pintos”, que um dia pareceram grandes demais para cair, agora enfrentam a mais difícil de todas as derrotas: aquela em que o adversário não é outro candidato, mas o próprio tempo.