Netanyahu discursar para uma ONU quase sem plateia é o retrato de décadas de obtusidade
Benjamin Netanyahu pode até tentar negar ou distorcer os fatos. A história não desaparece só porque ele não quer enxergá-la. O massacre contra o povo palestino não começou com o Hamas. Não começou em 7 de outubro de 2023. Muito antes do Hamas existir, já havia expulsões, chacinas e operações de limpeza étnica contra palestinos.
Em 1948, com a criação do Estado de Israel, veio a Nakba — a “catástrofe” palestina. Cerca de 700 mil pessoas foram arrancadas de suas casas. Dezenas de massacres marcaram esse processo. Um dos mais conhecidos é o de Deir Yassin, em 9 de abril de 1948, quando milícias sionistas atacaram uma aldeia palestina e mataram mais de cem pessoas, entre homens, mulheres e crianças. A historiografia também registra outros episódios, como Tantura e al-Dawayima.

O Hamas não existia quando tudo isso aconteceu. A organização só foi fundada em 1987, durante a Primeira Intifada — com anúncio público em dezembro daquele ano —, quase quatro décadas depois da criação de Israel. O Hamas nasceu da rede da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza e logo se tornou movimento político e armado.
É verdade que, por um tempo, autoridades israelenses toleraram e até estimularam o crescimento da rede islâmica ligada a Ahmed Yassin, na tentativa de enfraquecer a Organização para a Libertação da Palestina, especialmente o Fatah, que era a principal força política palestina. A verdade é que o Hamas recebeu apoio e teve um crescimento inicial facilitado por políticos israelenses que buscavam dividir a resistência palestina. Mas isso não apaga o fato de que o Hamas foi fundado por palestinos. Em meio a invasões, massacres e políticas genocidas, é lógico que um povo massacrado organize formas de resistência — e que, em alguns momentos, acabe utilizando práticas semelhantes às do próprio Estado que o oprime.
O mesmo apagamento aparece quando se fala do Líbano. O massacre de Sabra e Chatila, em Beirute, ocorreu entre 16 e 18 de setembro de 1982, antes da criação do Hezbollah, que começou a se formar em 1982 e teve fundação oficial em 1985. Milícias cristãs libanesas assassinaram palestinos e libaneses xiitas nos campos de refugiados, enquanto as forças israelenses controlavam a área e permitiram a entrada dos milicianos. As estimativas sobre o número de mortos variam, mas o episódio deixou centenas — possivelmente milhares — de civis mortos.
Fica claro, então, que a violência contra palestinos e libaneses não começou com o Hamas nem com o Hezbollah. Esses grupos surgiram depois de décadas de ocupação, expulsões, massacres e destruição. Reconhecer isso não é justificar ataques contra civis cometidos por nenhuma organização. É apenas recusar uma narrativa que começa a história no momento mais conveniente para Israel e apaga tudo o que veio antes.
Também não dá para esquecer os ataques recentes contra a região, incluindo ações militares contra o Líbano e contra o Irã. O ataque a uma escola no Irã, frequentada por meninas, foi uma imagem especialmente terrível do que acontece quando governos transformam populações civis em alvo de sua estratégia militar — um ataque que teve a assinatura dos Estados Unidos. A morte de crianças, estudantes e famílias não deixa de ser crime porque foi praticada por um Estado, por uma milícia ou por uma organização armada.


Hoje, porém, há uma diferença importante: o mundo vê muito mais. A televisão, os celulares e as redes sociais tornam difícil esconder massacres durante décadas. As imagens de Gaza chegam todos os dias às casas das pessoas. O sofrimento palestino já não depende apenas da versão oficial apresentada por governos e grandes veículos de comunicação.
Por isso, quando Netanyahu fala para auditórios vazios ou diante de uma plateia reduzida, isso também revela o isolamento político e moral de seu governo. O constrangimento não está só no salão vazio. Está no fato de que cada vez mais gente percebe a contradição entre o discurso de defesa da civilização e a destruição de cidades, hospitais, escolas e famílias inteiras. Quando Netanyahu subiu à tribuna da ONU, em setembro de 2026, a delegação brasileira foi uma das que abandonaram o plenário em protesto. Não foi uma ausência casual, mas um gesto diplomático deliberado, uma forma de dizer que o Brasil não aceitaria legitimar, com sua presença, o discurso de um governo acusado de cometer graves crimes contra a população palestina.
O mundo está enxergando aquilo que durante muito tempo foi encoberto: a responsabilidade dos Estados Unidos, de Israel e de outras potências na manutenção de uma ordem imperialista que permite a ocupação de territórios, o controle de recursos, a destruição de países e a submissão de povos inteiros.

A história não começou com o Hamas. Não começou com o Hezbollah. E também não começou em 7 de outubro de 2023. Para compreender o presente, é preciso lembrar a Nakba de 1948, os massacres anteriores à criação do Hamas, a ocupação, as guerras no Líbano e décadas de violência contra o povo palestino. Sem essa memória, qualquer análise fica incompleta — e qualquer discurso que apresente Israel apenas como vítima acaba funcionando como propaganda. Quando Lula disse em seu discurso na mesma tribuna: “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza.”, ele revela tanto as décadas de massacres israelenses quanto o atual governo sionista e genocida.
Por Cristóvão Moura, Sociólogo, professor e jornalista