Trump e a tentativa de impor uma nova ordem mundial
O retorno de Donald Trump ao centro do poder global reacendeu tensões e incertezas no cenário internacional. Em discursos recentes e decisões de impacto imediato, o presidente norte-americano tem demonstrado furor em estabelecer uma nova ordem política e econômica mundial, baseada menos em consensos multilaterais e mais na força, na pressão econômica e na imposição unilateral de interesses. Para críticos e analistas, trata-se de uma postura que despreza os princípios da democracia, da soberania das nações e do direito internacional, recolocando o mundo em uma lógica de poder que parecia superada.
Um mundo em transição e conflito
O atual momento geopolítico é marcado por profunda instabilidade. A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial — sustentada por instituições como a ONU, a OMC e alianças multilaterais — dá sinais de esgotamento. O avanço de conflitos regionais, a disputa entre grandes potências, a crise climática e a fragmentação econômica global criaram um ambiente fértil para líderes que defendem soluções autoritárias e nacionalistas.

É nesse contexto que Trump surge como protagonista de uma política externa agressiva, que questiona tratados, relativiza organismos internacionais e trata a diplomacia como uma transação comercial, na qual países mais fracos devem se submeter aos interesses dos mais fortes. Sanções econômicas, ameaças militares e intervenções diretas passam a ser instrumentos legítimos, mesmo quando violam fronteiras, leis e a autodeterminação dos povos.
A lógica da força acima da democracia
A retórica e as ações do presidente norte-americano apontam para um modelo em que a democracia deixa de ser valor universal e passa a ser secundária diante da conveniência estratégica. Governos aliados são tolerados, ainda que autoritários; adversários são tratados como inimigos a serem neutralizados. A soberania nacional, nesse desenho, torna-se relativa: existe apenas enquanto não contraria os interesses da potência dominante.
Esse comportamento aprofunda desigualdades globais, fragiliza países em desenvolvimento e enfraquece qualquer tentativa de governança internacional baseada em regras comuns. O mundo passa a operar sob uma lógica de zonas de influência, onde cada grande potência define o que pode ou não acontecer em determinadas regiões.

O paralelo com o Tratado de Tordesilhas
Para muitos observadores, a postura de Trump lembra, em essência, o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 por Portugal e Espanha. Naquele acordo, duas potências europeias decidiram dividir o mundo entre si, ignorando completamente os povos, culturas e civilizações que já existiam nos territórios repartidos. Não houve consulta, negociação ou respeito: apenas a imposição da vontade dos mais fortes.
Séculos depois, o paralelo se impõe. Assim como em Tordesilhas, a tentativa de redesenhar o mapa político e econômico global parte da premissa de que alguns poucos têm o direito de decidir o destino de muitos. A diferença é que, agora, os instrumentos não são caravelas e espadas, mas sanções financeiras, controle tecnológico, poder militar e influência midiática.
Consequências para o futuro
A insistência em uma nova ordem baseada na força tende a gerar mais conflitos, instabilidade e resistência. Países que se sentem ameaçados buscam alianças alternativas, aceleram processos de militarização e se afastam do diálogo diplomático. O resultado é um mundo mais fragmentado, menos cooperativo e mais perigoso.
Especialistas alertam que, ao desprezar a democracia e a soberania das nações, essa visão pode levar a um retrocesso histórico, desmontando décadas de avanços em direitos humanos, cooperação internacional e resolução pacífica de conflitos.
Entre o passado e o futuro
A história mostra que ordens impostas raramente são duradouras. O Tratado de Tordesilhas, símbolo máximo da divisão arbitrária do mundo, acabou ruindo diante da resistência dos povos e das mudanças históricas. O risco atual é repetir o erro, agora em escala global.
Diante desse cenário, a comunidade internacional se vê diante de um dilema: aceitar a imposição de uma nova ordem excludente ou reafirmar princípios que sustentam a convivência entre nações soberanas. O desfecho dessa disputa definirá não apenas o equilíbrio de poder, mas o próprio sentido de civilização no século XXI.