A Polícia Civil cumpriu mandados de prisão e busca e apreensão na terça-feira (3/03), em mais um desdobramento da operação sobre a fuga de 16 detentos no Conjunto Penal de Eunápolis, no extremo sul da Bahia. Entre os alvos está a ex-diretora da unidade, Joneuma Silva Neres, que já está presa e é acusada de envolvimento no crime.
Os mandados de prisão foram cumpridos dentro do próprio presídio de Eunápolis e também no Conjunto Penal de Itabuna. Dos 16 foragidos, um foi recapturado, dois morreram em confrontos com policiais e 13 seguem procurados.
A polícia também investiga uma tentativa de homicídio contra uma das principais testemunhas do caso. A suspeita é de que esse atentado tenha sido planejado para impedir que esse ex-funcionário do presídio de Eunápolis colaborasse com as investigações sobre a fuga.
Durante as buscas de terça-feira, um suspeito conseguiu fugir após atirar contra os policiais. No imóvel onde ele estava foram apreendidos drogas, dinheiro e anotações que farão parte da investigação.
A fuga aconteceu na noite de 12 de dezembro de 2024, quando um grupo de homens armados invadiu à unidade.
Fuga do presídio
Um ano e um mês após a fuga de 16 detentos, apenas um foragido foi recapturado pela polícia. Valtinei dos Santos Lima, conhecido como Dinei, foi encontrado no dia 6 de setembro de 2025.
Outros dois fugitivos foram mortos. Um deles foi Anailton Souza Santos, o Nino, morto após uma troca de tiros com a Polícia Civil em uma operação para recapturá-lo em Eunápolis, em 16 de janeiro de 2025.
O segundo foi Rubens Lourenço dos Santos, conhecido como Binho Zoião, um dos 117 homens mortos na megaoperação do Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Os outros 13 seguem foragidos.
Segundo o coronel Luís Alberto Paraíso, comandante da Polícia Regional na cidade, a fuga só foi possível devido a duas ações simultâneas. Isso porque enquanto os detentos perfuravam o teto de uma cela, um grupo de oito homens armados invadiu o presídio, atirando nos agentes de plantão.
“O grupo criminoso veio de fora do presídio, cortou a grade e começou a atirar nas guaritas. Essa troca de tiro sustentou a fuga dos elementos que desceram por cordas e fugiram pelo matagal”.
Ex-diretora de presídio é suspeita de facilitar fuga de detentos e teria vivido romance com chefe de facção
A ex-diretora do Complexo Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres foi presa um mês após o crime, suspeita de facilitar a fuga dos detentos. Até a publicação desta reportagem, ela segue detida.
Ela foi acusada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) de ter uma ligação com a organização criminosa da cidade e de ter se relacionado com Dada, apontado como chefe da facção. A ex-diretora foi encontrada no dia 23 de dezembro de 2025, perto de uma agência bancária em Teixeira de Freitas, também no extremo sul da Bahia.
Joneuma esteve à frente a unidade por nove meses e foi a primeira mulher a ocupar este tipo de cargo no estado. No entanto, apesar da representatividade, o que veio à tona após as prisões revela que o conjunto penal estava sob comando do crime organizado.
Conforme informações do processo ao qual a TV Bahia obteve acesso com exclusividade, desde que assumiu o cargo, em março de 2024, a gestora chamou a atenção das autoridades, especialmente pelas regalias dadas aos presos. Segundo informações presentes no documento, ela autorizou a entrada irregular de roupas, freezers, ventiladores e sanduicheiras.
O ex-coordenador de segurança da unidade, Wellington Oliveira Santos, foi uma das pessoas que revelou as irregularidades. Em depoimento, ele contou que Joneuma atendia a diversas exigências feitas, principalmente, por Dadá, o suposto chefe da facção.
Entre as regalias apontadas no depoimento, está o acesso de visitas. Wellington disse que a esposa de Dadá “passou a ingressar no conjunto penal, sem qualquer inspeção, mediante autorização da diretora”.
Outros relatos indicaram ainda que Joneuma e Dadá viveram um relacionamento amoroso, com relações sexuais dentro do presídio.
Esse detalhe não foi relatado pelo ex-coordenador de segurança da unidade prisional, mas Wellington mencionou que Joneuma e Dadá tinham “encontros frequentes, que ocorriam na sala de videoconferências, sempre a sós, com uma folha de papel ofício obstruindo a visibilidade da porta pela abertura de vidro”.
O homem disse também que “as reuniões eram sigilosas e geravam estranheza entre os funcionários devido à regularidade e longa duração”.
Quando foi presa, no dia 24 de janeiro deste ano, Joneuma estava grávida. O bebê nasceu prematuro e segue com ela na cela, no Conjunto Penal de Itabuna, no sul do estado.
MP denunciou ex-diretora e outros fugitivos
O MP-BA ofereceu denúncia, em março deste ano, contra Joneuma, Wellington, Dadá e os outros fugitivos. Segundo detalham os depoimentos, antes de fugirem, os detentos, que eram aliados de Dadá, foram colocados na mesma cela, de número 44.
Eles tiveram acesso a uma furadeira e abriram um buraco no teto da unidade, no dia 29 de novembro. O barulho não passou despercebido por agentes penais, mas a diretora só teria tomado uma atitude dois dias depois.
Foi neste momento que, segundo o ex-coordenador de segurança da unidade, ele recebeu ordem de Joneuma para buscar a ferramenta na cela, juntamente com a equipe.
Os agentes retiraram os presos e, em uma inspeção superficial, encontraram a ferramenta, que, conforme pontuou Wellington, foi mantida pela ex-diretora penal na sala dela por alguns dias. Somente pouco antes da fuga, ela pediu que o subordinado levasse o objeto para a casa dela.
Fonte: G1 Bahia