STF fixa penas de até 76 anos aos envolvidos no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes

A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) fixou, nesta quarta-feira (25/02), as penas dos envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O julgamento definiu condenações que variam de 9 a 76 anos de prisão, além do pagamento de indenização solidária no valor total de R$ 7 milhões às famílias das vítimas.

O relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes, votou pela condenação de Domingos Brazão, Chiquinho Brazão, Rivaldo Barbosa e Ronald Paulo de Alves por dois homicídios qualificados e uma tentativa de homicídio. Já Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, foi condenado por integrar organização criminosa.

O crime ocorreu em 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, e teve repercussão internacional, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da história recente do país.

As condenações incluem agravantes como motivo torpe, impossibilidade de defesa das vítimas e o fato de o crime ter sido praticado contra agente pública no exercício do mandato.

Penas fixadas

A dosimetria apresentada por Moraes foi acompanhada integralmente pelos outros ministros da Primeira Turma, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Cármen Lúcia.

IRMÃOS BRAZÃO

Eles foram acusados de organização criminosa, homicídio qualificado e tentativa de homicídio contra Fernanda Chaves. Moraes considerou que Domingos Brazões utilizou instrumentos do Estado para expandir o domínio de milícias, grilagem de terras urbanas e eliminação de opositores políticos, como Marielle Franco.

As qualificadoras reconhecidas para o homicídio da vereadora incluíram:

  • Motivo torpe (mediante paga ou promessa de recompensa);
  • Emprego de meio que resultou em perigo comum (disparos em via pública);
  • Recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima (emboscada); e
  • No caso de Anderson Gomes e da tentativa contra Fernanda Chaves, para assegurar a execução e a impunidade de outro crime.

O ministro ressaltou ainda que o réu, mesmo ocupando cargos públicos de confiança, agiu dolosamente para corromper instituições estatais.

As penas dos irmãos Brazão foram fixadas em 76 anos e 3 meses de reclusão para cada um, além do pagamento de um total de quase R$ 2,6 milhões em indenização.

RONALDO ALVES


Ronald Paulo de Alves, ex-oficial da Polícia Militar do RJ, foi condenado pelos dois homicídios qualificados e pela tentativa de homicídio. Moraes destacou que o réu, investido em função pública de segurança, “desvirtuou o juramento de proteção à sociedade” para atuar como liderança de milícia em Rio das Pedras.

Segundo o relator, Ronald instrumentalizou seu treinamento tático, informações privilegiadas e contatos institucionais para consolidar domínio territorial, viabilizar grilagem de terras e monitorar opositores políticos.

O ministro enfatizou que o monitoramento da vereadora Marielle Franco foi realizado com base no conhecimento técnico adquirido como policial militar, convertendo “a estrutura de segurança em braço operacional do crime organizado”.

Classificou a conduta como uma das faces mais graves da corrupção institucional, ao desviar o “braço armado do Estado” para fins criminosos.

Sua pena foi fixada em 56 anos de reclusão.

RIVALDO BARBOSA

Na sequência, foi fixada a pena de Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, ex-diretor da Divisão de Homicídios e ex-chefe da Polícia Civil do RJ. Ele foi condenado por obstrução à justiça e corrupção passiva.

O relator afirmou que as circunstâncias judiciais também são integralmente desfavoráveis ao réu, com agravante institucional relevante: à época dos fatos, Rivaldo era o responsável pela condução das investigações.

Segundo Moraes, o então chefe da Polícia Civil “instrumentalizou todo o aparato da segurança pública do Estado”, recebendo propina de forma sistemática de milícia da qual os irmãos Brazão faziam parte, com o objetivo de desviar o rumo das apurações e assegurar impunidade.

O ministro destacou que se trata de hipótese especialmente grave de corrupção institucional, pois o réu ocupava exatamente o cargo responsável por apurar o crime.

Sua pena foi fixada em 12 anos de reclusão em regime inicial fechado, além de R$ 580 mil em multa.

ROBSON FONSECA
Por fim, foi fixada a pena de Robson Calixto Fonseca, ex-assessor parlamentar e apontado como homem de confiança da família Brazão. O homem foi condenado por ser integrante da organização criminosa que matou Marielle.

Segundo destacou Moraes, Robson utilizava o cargo de assessor como elo operacional entre o núcleo político e milicianos, oferecendo suporte logístico e garantindo a arrecadação de recursos provenientes de atividades ilícitas, como exploração de mercados irregulares e agiotagem.

Moraes recomendou uma pena de 9 anos de reclusão e multa de quase R$ 300 mil.

Indenização às famílias

Além das penas privativas de liberdade, a 1ª Turma do STF determinou o pagamento de indenização por danos morais no valor total de R$ 7 milhões, a ser quitado de forma solidária pelos condenados.

Durante o julgamento, Moraes ressaltou que os homicídios consumados privaram as famílias de Marielle Franco e Anderson Gomes de seus entes queridos, enquanto a tentativa de homicídio contra Fernanda Gonçalves Chaves impôs trauma físico e psicológico duradouro à sobrevivente e à sua família.

Considerando o conjunto probatório e a capacidade econômica dos condenados, o relator fixou o valor total de R$ 7 milhões, a ser pago de forma solidária pelos réus.

A indenização foi distribuída da seguinte forma:

  • R$ 1 milhão para Fernanda Gonçalves Chaves e sua filha, dividido igualmente entre ambas;
  • R$ 3 milhões para a família de Marielle Franco, divididos igualmente: R$ 750 mil para cada familiar (pai, mãe, filha e viúva);
  • R$ 3 milhões para a família de Anderson Gomes, divididos igualmente entre a viúva, Agatha Reis, e o filho, Arthur Reis Matias (R$ 1,5 milhão para cada).

O ministro ressaltou que os efeitos dos crimes se prolongaram ao longo dos anos, inclusive em razão da atuação para desviar o rumo das investigações.

Marco judicial

A fixação das penas pelo STF encerra uma etapa decisiva do processo criminal e reforça o entendimento da Corte quanto à gravidade institucional do crime, que atingiu não apenas as vítimas, mas também o Estado Democrático de Direito.

O julgamento representa um desfecho relevante após anos de investigação, marcados por mudanças de competência, delações premiadas e desdobramentos que alcançaram agentes públicos e estruturas de poder.

O caso de Marielle e Anderson tornou-se símbolo da luta por justiça, direitos humanos e combate à violência política no Brasil.

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