O silêncio do governador Jerônimo Rodrigues diante da prisão do ex-deputado federal Uldurico Júnior tem ampliado o ambiente de incerteza política na Bahia. A ausência de um posicionamento público mais enfático por parte do chefe do Executivo estadual vem sendo interpretada de diferentes formas por aliados e adversários, alimentando especulações sobre os possíveis desdobramentos do caso.
Uldurico Júnior, que já integrou a base de apoio do governo em momentos distintos da sua trajetória, foi preso no âmbito de investigações que ganharam novos contornos após a colaboração premiada de Joneuma Neres. As declarações da ex-diretora trouxeram à tona acusações que envolvem relações entre agentes políticos e o crime organizado, tema historicamente sensível e frequentemente debatido nos bastidores da política baiana.
As relações entre o Estado e o chamado “poder paralelo” sempre circularam “à boca miúda” entre a população. Com a expansão de modelos ligados ao narcotráfico oriundos de outros estados, como o Rio de Janeiro, a Bahia passou a conviver com dinâmicas complexas que, segundo analistas, envolvem interesses estratégicos de diferentes grupos. Nesse contexto, a delação de Joneuma e a implicação de Uldurico são vistas por alguns setores como um ponto de inflexão, ao trazer elementos concretos para discussões que antes eram marcadas por suposições.
Oriundo de uma família tradicional da política do Extremo Sul da Bahia, Uldurico construiu uma carreira com dois mandatos na Câmara dos Deputados e trânsito em diversas siglas. Em 2024, durante a disputa pela prefeitura de Teixeira de Freitas, seu nome esteve associado a uma ampla coalizão partidária, incluindo legendas de diferentes espectros ideológicos. Foi nesse período, segundo a delação, que teriam ocorrido negociações irregulares envolvendo apoio político.
As acusações avançam para além de práticas eleitorais ilícitas. De acordo com o relato de Joneuma, o ex-deputado teria participado de tratativas com o líder de facção Ednaldo Pereira de Souza, conhecido como Dada, envolvendo a facilitação de uma fuga do sistema prisional mediante pagamento milionário. O caso também menciona supostas interlocuções que atingem figuras de peso da política baiana, como Geddel Vieira Lima, o que ampliou ainda mais a repercussão.
Outro ponto sensível diz respeito à atuação da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). A delação sugere falhas estruturais e possível influência externa no funcionamento do sistema prisional, incluindo a incapacidade de conter a atuação de organizações criminosas dentro das unidades. Esse cenário reacendeu críticas antigas sobre a gestão da pasta e o modelo de distribuição política de cargos.
Enquanto Geddel Vieira Lima se manifestou publicamente rebatendo as acusações, o governo estadual optou por uma postura mais reservada. O silêncio de Jerônimo Rodrigues contrasta com a gravidade das denúncias e ocorre em um momento em que a oposição intensifica críticas à condução da segurança pública no estado. Entre os principais questionamentos está a suposta complacência com o avanço do crime organizado, uma acusação que o governo nega reiteradamente em outras ocasiões.
Nos bastidores, há também apreensão quanto à possibilidade de novos desdobramentos. A hipótese de que Uldurico Júnior possa firmar um acordo de colaboração premiada é vista como um fator de risco político, sobretudo pela sua longa trajetória e conexões partidárias. Caso isso ocorra, o alcance das investigações pode se ampliar significativamente.
Por outro lado, a atuação conjunta de órgãos como o Ministério Público da Bahia (MP-BA) e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) é apontada como um elemento de contenção institucional, com potencial para evitar impactos ainda maiores na imagem do governo.
Diante desse cenário, o silêncio do governador segue sendo interpretado como uma estratégia cautelosa por alguns, enquanto outros veem a ausência de posicionamento como um fator que contribui para o aumento das incertezas. O desfecho do caso e eventuais novas revelações devem ser determinantes para os rumos do debate político no estado nos próximos meses.