Prefeito é afastado dois dias após ser eleito por suspeita de ligação com o CV e desvio de R$ 270 mi

O novo prefeito da cidade paraibana de Cabedelo, Edvaldo Neto (Avante), foi afastado nesta terça-feira após a Polícia Federal deflagrar uma operação com objetivo de investigar um suposto esquema de desvio de recursos públicos, fraudes em licitações e financiamento do Comando Vermelho (CV) na cidade. O gestor venceu a eleição suplementar para a prefeitura há apenas dois dias, no domingo, realizada pelo fato do ex-prefeito André Coutinho (Avante) ter sido cassado em no ano passado justamente por suspeita de utilizar a máquina pública para beneficiar o grupo criminoso Tropa do Amigão, ligado ao CV.

Segundo as investigações, um “consórcio” entre políticos da alta cúpula do município, empresários e membros da facção podem ter movimentado cerca de R$ 270 milhões em contratos ilegais. Intitulada “Operação Cítrico”, a ação é realizada em conjunto com o Ministério Público da Paraíba, por meio do Gaeco, e com a Controladoria-Geral da União (CGU). Ao todo, estão sendo cumpridos 21 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares pessoais autorizadas pela Justiça.

De acordo com a PF, o esquema teria como base a contratação fraudulenta de empresas fornecedoras de mão de obra ligadas a um grupo criminoso. Essas empresas seriam utilizadas para inserir integrantes da facção na estrutura da prefeitura, permitindo acesso a recursos públicos e influência direta na administração municipal. A PF aponta ainda que valores de origem pública teriam sido desviados e direcionados para o financiamento de atividades ilícitas.

Os investigadores identificaram também o que classificam como um “consórcio” entre os suspeitos, voltado à manutenção de contratos milionários e à distribuição sistemática de vantagens indevidas. Nesse contexto, contratos administrativos teriam sido utilizados não apenas para fins econômicos, mas como instrumento de consolidação de poder político, influência territorial e blindagem institucional do grupo.

Os alvos da operação poderão responder por crimes como frustração do caráter competitivo de licitação, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e financiamento de organização criminosa, além de outros delitos que possam ser identificados ao longo das apurações.

Ao g1, a defesa de Edvaldo afirmou que “o prefeito jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa, sendo tal imputação absolutamente inverídica e incompatível com sua trajetória pública”. No seu lugar, assume interinamente o vice José Pereira (Avante).

Mandato-tampão

A ofensiva ocorre em meio a um cenário recente de instabilidade política no município, que voltou às urnas no domingo para escolher um novo prefeito em eleição suplementar.

Edvaldo Neto foi eleito com 61,2% dos votos válidos. Ele venceu Walber Virgolino, do PL, então gestor interirno, que marcou 38,7%. A cidade da Grande João Pessoa tem população estimada de 70.734 pessoas, segundo o IBGE, e estava sem prefeito desde a cassação dos mandatos de Coutinho e da vice-prefeita Camila Holanda (PP). Foram 26.435 votos válidos no total.

Durante o mandato do ex-prefeito, a Operação En Passant, do Ministério Público Federal (MPF), apontou que nomeações na gestão municipal se deram para beneficiar nomes ligados a Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, uma das principais lideranças criminosas da Paraíba. Em troca, a facção deu apoio a Coutinho e outros candidatos nas eleições do ano passado.

As nomeações foram feitas durante a gestão do antecessor de Coutinho na Prefeitura, Vitor Hugo Castelliano (Avante). O elo entre a facção, a Prefeitura e as campanhas eleitorais era Flávia Santos Lima Monteiro. Segundo as autoridades, ela “usou sua influência para viabilizar nomeações de pessoas vinculadas à facção criminosa para ocuparem cargos públicos”.

Entre aqueles que se beneficiaram do esquema está Marcela Pereira da Silva, filha adotiva de Fatoka, que foi nomeada Secretária Municipal Adjunta de Ação Governamental. Em um pen drive apreendido na Secretaria de Administraçãona peioca, os investigadores obtiveram uma planilha na qual o nome de Marcela e Flávia aparecem seguidos das letras “FTKA”. No entendimento das autoridades, trata-se de uma referência a Fatoka.

Quem foi afastado

Conforme apuração da TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo, estão entre os alvos da operação:

  1. Edvaldo Manoel de Lima Neto
  2. Josenilda Batista dos Santos
  3. Vitor Hugo Peixoto Castelliano
  4. Luciano Junior da Silva
  5. Aldecir Monteiro da Silva
  6. Rougger Xavier Guerra Junior
  7. Diego Carvalho Martins
  8. Rita Bernadeth Moura Medeiros
  9. Claudio Fernandes de Lima Monteiro
  10. Cynthia Denize Silva Cordeiro
  11. Tanison da Silva Santos
  12. Genilton Martins de Brito
  13. Manuella Trevizan da Silva

Fonte: O Globo

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