Operação “Duas Rosas” atinge núcleo de antiga oligarquia política no sul da Bahia e prende Uldurico Júnior

A deflagração da operação “Duas Rosas”, conduzida pelo Ministério Público da Bahia no sul do estado, reacendeu debates sobre o legado e o declínio de uma das mais influentes famílias políticas da região. Entre os alvos da ação está o ex-deputado federal Uldurico Júnior, herdeiro direto de um grupo que, por décadas, construiu um verdadeiro império político no extremo sul baiano.

A chamada “dinastia Pinto” alcançou seu auge ao controlar simultaneamente importantes prefeituras, como Porto Seguro, Teixeira de Freitas e Medeiros Neto, além de Serra dos Aimorés, em Minas Gerais. O domínio político se estendia ainda à presença de representantes nos legislativos estadual e federal, consolidando uma rede de influência que extrapolava limites municipais e moldava decisões em diversas cidades circunvizinhas.

A trajetória ascendente teve como principal arquiteto, o já citado na delação de Joneuma, ex-diretora do Presídio de Eunápolis e pivô da operação, o ex-deputado Uldurico Pinto, figura central na construção do capital político da família. No entanto, os primeiros sinais de desgaste surgiram ainda nos anos 1990, com o envolvimento do patriarca no escândalo dos Anões do Orçamento, um dos maiores casos de corrupção da história recente do país.

O ex-deputado Uldurico Júnior sendo transferido de cela

A partir daí, uma sequência de investigações e denúncias passou a atingir diferentes membros da família. Um dos episódios mais emblemáticos foi o afastamento do então prefeito de Porto Seguro, Ubaldino Júnior, em 2003, acusado de envolvimento em esquemas de licitações fraudulentas e improbidade administrativa. Filho do também ex-prefeito José Ubaldino, Ubaldino Júnior chegou a ser visto como símbolo de renovação política, mas acabou afastado e permanece inelegível há mais de duas décadas.

Com o avanço das investigações ao longo dos anos, o que antes era um conglomerado político dominante foi gradualmente perdendo força. Hoje, o que resta da antiga estrutura de poder se concentra basicamente em uma única prefeitura, em Medeiros Neto, administrada por um dos remanescentes da família.

A operação “Duas Rosas” surge, nesse contexto, como mais um capítulo de um processo contínuo de desgaste. Ao atingir diretamente Uldurico Júnior, a ação reforça a percepção de que os esforços de retomada política por parte dos herdeiros enfrentam obstáculos cada vez maiores, tanto no campo jurídico quanto no cenário eleitoral.

Casos de famílias políticas que perdem protagonismo não são raros na Bahia. No entanto, a velocidade e a intensidade com que a influência da família Pinto se esvai chamam atenção. O que um dia foi apresentado como renovação administrativa, com lideranças jovens e promissoras, acabou associado a sucessivos escândalos que migraram do campo político para as páginas policiais.

A operação em curso não apenas amplia o cerco judicial, mas também simboliza, para analistas, um possível ponto de inflexão definitivo na história de uma das mais marcantes oligarquias do sul baiano — um desfecho que, pela dimensão da ascensão e pela dramaticidade da queda, tende a permanecer na memória política da região.

destaque
Comentários (0)
Adicionar comentário