Em uma decisão unânime na Seção de Direito Público do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), desembargadores aprovaram nesta sexta-feira (23/01) a intervenção estadual no município de Turilândia, localizado na região da Baixada Maranhense, que desde dezembro enfrenta uma grave crise político-administrativa e de credibilidade pública.
A medida foi motivada pelo afastamento e prisão de boa parte da cúpula do Poder Executivo e Legislativo do município — incluindo o prefeito, a vice-prefeita, a primeira-dama e todos os 11 vereadores — no âmbito da Operação Tântalo II, deflagrada no final de 2025 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Maranhão.
Com a intervenção definida pelo TJMA, agora cabe ao governador do Maranhão, Carlos Brandão, editar o decreto oficial e nomear um interventor para administrar o município por um período inicial de até 180 dias, com a missão de restabelecer a ordem administrativa, reorganizar as finanças e garantir o funcionamento dos serviços públicos essenciais, como saúde, educação e infraestrutura.
O escândalo que abalou Turilândia
O epicentro da crise foi a investigação do suposto desvio de aproximadamente R$ 56,3 milhões dos cofres públicos da Prefeitura de Turilândia, recursos que deveriam ter sido aplicados em políticas e serviços básicos desde 2021 — ano em que o atual prefeito foi eleito.
Segundo o Ministério Público, o esquema envolvia fraudes em licitações, contratos com empresas de fachada e emissão de notas fiscais sem prestação de serviços correspondentes. Entre os crimes apurados estão organização criminosa, fraude à licitação, peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.
Quem são os investigados e denunciados
Segundo denúncia do Ministério Público, destacam-se entre os principais envolvidos:
José Paulo Dantas Silva Neto, o Paulo Curió — prefeito de Turilândia e apontado como líder do esquema de corrupção.
Eva Maria Cutrim Dantas (Eva Curió) — primeira-dama e também denunciada por participação no núcleo financeiro da organização.
Tânya Karla Cardoso Mendes Mendonça (Tânya Mendes) — vice-prefeita e envolvida nas supostas irregularidades.
Janaína Soares Lima — ex-vice-prefeita, denunciada por participar dos contratos fraudulentos.
Diversos familiares e aliados, incluindo pai, irmãos, tio e cunhados de Paulo Curió.
Além dessas lideranças, 11 vereadores da Câmara Municipal foram alcançados pela operação e cumprem prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, ainda que mantenham atividades legislativas.
Impactos e situação da população
Turilândia, uma cidade de cerca de 32–33 mil habitantes, foi profundamente afetada pela crise institucional. A ausência de uma gestão efetiva e a constante instabilidade no comando da prefeitura e da Câmara comprometeram, segundo lideranças comunitárias e moradores, a continuidade de serviços básicos como atenção primária à saúde, manutenção de estradas e supervisão escolar.
A perda de confiança nas instituições locais também é um sentimento recorrente entre cidadãos: muitos temem que os recursos desviados pudessem ter sido aplicados em melhorias urgentes para a população, como atendimento médico mais qualificado, infraestrutura urbana e programas sociais. A intervenção estadual, embora vista por alguns como necessária, é também motivo de incerteza, já que decisões administrativas ficarão sob responsabilidade de um interventor nomeado pelo governo estadual e não eleito pelos moradores.
Crise institucional e resposta do Ministério Público
O caso Turilândia ainda provocou tensões internas no Ministério Público do Maranhão. Um parecer favorável à soltura dos investigados, emitido pela Procuradoria-Geral de Justiça, gerou um pedido de exoneração coletiva de promotores que integravam o Gaeco — que haviam conduzido as investigações e defenderam a manutenção das prisões para resguardar o andamento das apurações.
O que vem a seguir
Com a decisão judicial pela intervenção, Turilândia inicia um novo capítulo de sua administração, aguardando a nomeação oficial do interventor pelo governador. Enquanto isso, o processo judicial referente à Operação Tântalo II segue em tramitação nas instâncias competentes, com mais desdobramentos possíveis nos próximos meses.