Em um momento que muitos analistas internacionais consideram decisivo para o futuro do comércio global, o Parlamento Europeu aprovou na manhã desta sexta-feira, (9/01) o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul — bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A votação, considerada apertada em meio às tensões internas, marca o fim de um processo que começou em negociações bilaterais ainda no final da década de 1990 e foi reativado várias vezes ao longo dos últimos 25 anos.
O significado geopolítico e econômico
Proponentes do tratado comemoram o desfecho como uma mensagem clara em defesa do multilateralismo num momento em que o mundo enfrenta um refluxo da cooperação internacional e um aumento de políticas protecionistas. Para líderes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o acordo — que integra um mercado de mais de 720 milhões de pessoas e um PIB conjunto estimado em cerca de US$ 22 trilhões — reforça que blocos econômicos ainda podem gerar soluções negociadas e duradouras para desafios comerciais e políticos globais.
Especialistas destacam que, além de ampliar o comércio entre os dois blocos, o acordo reduz tarifas sobre bens industriais e agrícolas, o que deve gerar novos fluxos de exportação e importar insumos mais competitivos para as cadeias produtivas de ambos os lados. Estimativas preliminares apontam aumentos significativos nas exportações brasileiras, com impactos positivos sobre PIB, renda e emprego nacional.
Uma negociação longa e cheia de percalços
O processo de negociação do que hoje é o Acordo de Associação Mercosul-União Europeia remonta a 1999, com várias interrupções e retomadas ao longo das décadas seguintes. O texto final do acordo foi trabalhado em torno da última década, com a conclusão de partes essenciais em 2019 e refinamentos liderados principalmente pelo Brasil e República Argentina nos últimos anos.
Foram necessárias rodadas presenciais, negociações técnicas complexas e ofertas de salvaguardas sobre questões sensíveis como agricultura, meio ambiente e normas sanitárias antes que Bruxelas e os quatro países sul-americanos chegassem a uma versão que pudesse ser apresentada ao Parlamento Europeu.
O papel do Brasil e do governo Lula
O governo brasileiro, sob a liderança do presidente Lula e com ampla coordenação diplomática nos últimos três anos, foi um dos protagonistas no momento final das negociações. Autoridades brasileiras e europeias destacaram a liderança de Brasília no empurrão final das conversas, reativando trocas, alinhando posições de interesse comum e enfatizando a importância geopolítica de um acordo desse escopo no cenário global atual.
Lula, em declarações recentes, enfatizou que o acordo envia um recado político contra o “desmonte do multilateralismo” e sinaliza que cooperação e integração econômica continuam vias essenciais para crescimento sustentável e inclusão social global.
A oposição francesa e o dilema agrícola europeu
Apesar da aprovação, o acordo não passou sem controvérsias. O presidente francês Emmanuel Macron anunciou oficialmente que a França votaria contra o tratado, refletindo uma forte pressão interna de setores agrícolas e de agricultores que temem a concorrência de produtos do agronegócio sul-americano — notadamente carne bovina, açúcar e outros bens que seriam importados com tarifas reduzidas ou eliminadas sob o pacto.
Protestos de agricultores, inclusive com tratores bloqueando vias em Paris, ilustraram o descontentamento de uma parte significativa do eleitorado francês, que argumenta que os produtos estrangeiros vendem abaixo dos custos de produção locais e ameaçam a subsistência dos produtores europeus.
Apesar da oposição de Paris — que inclusive gerou protocolos adicionais de fiscalização de alimentos importados e um intenso debate político interno —, o acordo recebeu apoio suficiente de outros Estados-membros, incluindo Alemanha, Espanha e Itália, além de ampla maioria no Parlamento Europeu para seguir adiante.
Próximos passos
Agora que o Parlamento Europeu aprovou a medida:
Assinatura formal do acordo por representantes dos blocos.
Tradução e revisão legal completa do texto em todas as línguas oficiais da UE e do Mercosul.
Processo de ratificação pelos parlamentos nacionais dos Estados-membros da União Europeia, além dos legislativos dos países do Mercosul.
Implementação escalonada das reduções tarifárias e medidas de facilitação comercial, conforme os prazos acordados.
Monitoramento contínuo de salvaguardas agrícolas e dos compromissos ambientais e sanitários integrados ao acordo.
O tratado, quando em vigor, não só reprime tendências protecionistas em outras regiões, mas também abre vastas oportunidades para empresas, agricultores e consumidores em um momento em que cadeias globais de valor enfrentam desafios de competitividade e sustentabilidade ambiental.